(iii) conversa com enfermos

no início da semana uma visita perguntou-me o que eu achava da situação clínica da sua esposa, uma doente octagenária que acabara de sofrer um acidente vascular cerebral isquémico. qualquer profissional de saúde sabe que juntar esta idade com avc isquémico é por si só uma terrível equação (fora todos os outros detalhes que aqui não falarei).

ele um senhor nonagenário, invulgarmente enérgico para a idade, olhou-me com um sorriso que escondia dor e disse-me:

– Olhe que eu sem ela não sou ninguém. Se ela for eu vou atrás. É ela que toma conta de tudo…

na altura disse-lhe que ainda era muito cedo para perceber as consequências do avc mas que tinha-mos de dar tempo à sua esposa para recuperar (e genuinamente assim o é. só 48h depois conseguimos ter uma real dimensão dos estragos de um evento isquémico através de exames complementares).

ele então passou-lhe a mão pela face e disse-me:

– O problema é que para nós o tempo esgotou-se.

ao longo da semana tenho pensado nisto. quem nobre é viver com alguém uma vida inteira e ainda genuinamente querer mais!

(e a situação clínica agravou)

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de quando em vez não consigo dormir bem depois de trabalhar de noite

se nas primeiras horas caio sempre redondo no leito, por vezes acontece acordar ao final de umas 3 ou 4 horas e é aí que me vêm à mente as tormentas. de quando em vez recordo os rostos, as falas em dialectos misturados entre português mal-amanhado e kimbundu, kikongo e umbundu. recordo a terra vermelha e o pó no ar. o mar de chapas de zinco e o fedor das ruas. revejo diante dos meus olhos a prepotência dos que pensam que são alguém por usar acessórios de luxo, quando na verdade são apenas mais alguns desgraçados que desgraçam o seu povo e no fim acabam da mesma maneira, deitados num leito de morte (que lhes chega cedo de mais porque o pais onde vivem é miserável), e onde ninguém os sabe cuidar.

atormenta-me a face dos que deixei partir, mas penso sempre com angústia nos que ajudei a cuidar. porque vi felicidade e agradecimento nas caras de seus familiares, mas no fundo receio que muitos possam já não estar vivos. porque o país rico não é capaz de cuidar dos seus. porque o povo não tem formação e no momento em que saem do hospital para fora deixam de tomar medicação… porque não sabem ou não compreendem, porque não têm como ou porque não há onde a comprar…

foi há um ano que deixei de ir aquele lugar maldito.

de quando em vez até a morte fica à espera

certos doentes lutam até ao fim. o corpo quer desistir, os alvéolos fecham-se e o ph do sangue torna-se incomportável com a vida e ainda assim resilientes esperam por qualquer coisa antes de se deixarem ir.

esta semana assisti a mais um desses casos. doente em estado crítico, sedado e ainda assim esperou que o seu filho regressa-se a portugal. como poderia saber!? a dose de sedação em curso deixaria qualquer um de nós em sono profundo durante dias… e ainda assim esperou.

esperou e o filho chegou. depois deixou-se por fim partir num momento sereno e sem qualquer tipo de agonia. o coração simplesmente parou.

no hospital raras são as noites calmas

mas de quando em vez calha uma tranquila em que a gestão dos cuidados está perfeitamente controlada e eu consigo ter tempo para escutar o tic tac dos relógios ditando o tempo a passar…

de tempos a tempos todos nós devíamos parar e escutar os segundos a passar! 
é que o tempo na nossa vida voa. será que o estamos a aproveitar!?

tenho a certeza que eu estou a tentar!

(ii) conversa com enfermos

esta semana uma doente sofreu um surto psicótico após a sua cirurgia onde uma das válvulas cardíacas foi trocada e do nada, no meio do seu delírio fulminou-se com o seu olhar e disse-me:

– Eles mentem-me mas eu sei que foi você!

encolhi os ombros e perguntei de volta o que é que eu tinha feito.
a resposta trouxe fúria e gritaria…

– Foi você que me roubou as válvulas!

o momento da partida (mesmo que anunciada) é sempre o mais doloroso

lidar com a morte é uma parte importante do meu trabalho e com o tempo aprendemos a criar um ténue filtro entre aquilo que é o ser-se profissional e simultaneamente ainda o não deixar que a morte nos afecte mas ser-se o mais humano possível para perceber e lidar com a dor dos que ficam.

é uma gestão que confesso que o tempo ajudou a melhorar.

de tantas vezes ter visto o momento da linha isoeléctrica chegar, aprendi que a morte em portugal como em áfrica é sempre igual. é uma violência, é um estrondo de emoções e por muito que se prepare a família, existe sempre uma dor universal, não escolhe línguas, origens nem níveis de educação. é dor ponto. não passa com analgésicos, não passa com o choro nem com as palavras de conforto.

em luanda vivi experiências muito intensas com famílias nos momentos de luto após a morte das suas crianças e isso fez apertar ainda mais o tal filtro do profissionalismo no momento da morte de um doente (pela minha saúde mental teve de ser!).

mas hoje faleceu um super herói, um doente que resistiu a tudo o que de mau lhe podia ter acontecido. hoje faleceu um lutador que mesmo sem poder falar tinha sempre um sorriso que nos fazia lembrar que os nossos problemas são meras futilidades quando comparados com a condição de quem luta numa cama de hospital pela vida que ficou em suspenso lá fora. hoje faleceu um pai que teve o seu filho consigo até ao fim.

abracei o filho e deixei-o chorar.

descansa em paz F.

conversa com enfermos

ontem ao final da tarde um doente acabado de chegar de forma emergente ao meu serviço e por entre a confusão e a agitação associada aos níveis de toxicidade sanguínea disse-me:

– Deixem-me morrer.

desconhecia a sua história, as razões para tal pedido e por isso simplesmente limitei-me a responder: você hoje já morreu uma vez, foi reanimado e agora tenha paciência e deixe-nos acabar a sua hemodiálise.
a resposta foi parca:

– Isso da paciência é uma porra!