lá fora há uma pedra

que me faz sempre lembrar a forma de um coração.
é uma pedra tosca, como tantas outras que são resquícios da destruição da terra onde estão os alicerces da minha casa, mas sempre que olho para ela faz-me lembrar um coração de pedra.
um coração que passa o inverno sem sol.
um coração imóvel e indiferente ao tempo que passa e que ainda está por vir.
um coração que se molha e que até já é porto de abrigo para alguns líquenes.
a prova que até num coração de pedra a vida triunfa sempre!

tonalidades

Charles Bradley – Lovin’ You, Baby (ao vivo para a KEXP)

a paixão na voz e a entrega de charles bradley alegram sempre a minha mente!
a escolha deste vídeo para começar esta categoria não é um mero acaso. charles bradley luta neste momento contra uma neoplasia do estômago. força screaming eagle of soul!

certas dores

não têm explicação.
não têm começo nem fim. aparecem e desaparecem sem que possamos perceber o porquê de nos recordarmos desses momentos de angústia…
no fundo são como um osso que um dia se partiu e que até se regenerou mas, em certos dias cinzentos (não em todos), lateja uma dor aguda que tão depressa aparece como desaparece, só para nos lembrarmos que um dia o fracturámos.
este esqueleto está definitivamente a envelhecer!

afinal o rui veloso estava enganado

a música sempre esteve presente na minha vida. eu sou capaz de recordar melodias específicas para tantas memórias, traduzindo estados de espírito tantas vezes tão diferentes como equivalentes.

desde cedo eu aprendi a ter ouvido para compreender a melodia que na maioria das vezes é para mim o que mais me interessa, seja por não existir letra de todo, seja porque a letra é simplesmente má ou então porque o artista não é de todo um bom cantor e mais valia estar calado! raras porém devem ser as vezes em que acho que uma boa letra se conjuga com uma boa melodia.

não existe vida sem melodia. e seguramente que cada um de nós tem os seus gostos muito próprios. eu tive o privilégio de crescer num tempo de vinil, de cassetes, de cd’s, de mp3, de napster! a primeira melodia séria que compreendi foi na infância e ainda hoje assobio em fá sustenido “va, pensiero” do giussepe verdi. a dada altura na adolescência na mesma tarde podia ouvir pixies, aturar os xutos, decorar os ornatos, tentar perceber o puccini, gramar com o bach, cantarolar pearl jam e adormecer a ouvir os nirvana em unplugged (os puristas do grunge diriam que é uma ofensa apreciar pearl jam e simultaneamente nirvana…).

orgulhava-me dos gigas ocupados pela minha colecção e raramente o leitor estava parado. a busca por novas tonalidades tornou-se incansável!

a influência da música em mim foi tal que a dado momento achei que podia conhecer alguém através da música que escuta. de certeza que avaliei pessoas por esse critério. no fundo pensava que era tudo como na frase mestra do anel de rubi do rui veloso… “(…) não se ama alguém que não ouve a mesma canção” e a todo o instante tentava induzir os meus gostos.

compreendo agora o quanto isso não interessa para nada!

às vezes precisamos de aceitar que até no quim barreiros podemos encontrar poesia e razões para a existência humana. no fundo o que interessa é o efeito da melodia sobre o outro. se a pior melodia que podemos conhecer, aquela que num dia normal é tão intragável que nem 2 segundos iria sobreviver ao zapping do auto-rádio, mas que porém consegue fazer sorrir a pessoa que amas então ignora a tua náusea!

esta foi uma grande lição que eu aprendi e tenho a certeza que só assim é que hoje consigo aguentar as longas sessões de tortura do canal panda!

e viva a xana toc toc no seu trolipop… [ironia]

conversa com enfermos

ontem ao final da tarde um doente acabado de chegar de forma emergente ao meu serviço e por entre a confusão e a agitação associada aos níveis de toxicidade sanguínea disse-me:

– Deixem-me morrer.

desconhecia a sua história, as razões para tal pedido e por isso simplesmente limitei-me a responder: você hoje já morreu uma vez, foi reanimado e agora tenha paciência e deixe-nos acabar a sua hemodiálise.
a resposta foi parca:

– Isso da paciência é uma porra!