desassossego imobiliário

a vida aqui no meu bairro até costuma ser bem tranquila.

de um lado a metrópole a perder de vista, o tejo e em dias bons lá bem longe ao fundo a serra da arrábida. do outro a serra, oliveiras ao abandono, perdizes a esgravatar o chão, gatos vadios a caçar no monte…

mas de há uns tempos para cá, desde que algum iluminado escreveu na comunicação social que era um novo bairro meio de luxo, com excelentes acessos e muito tranquilo a minha caixa de correio tem sido constantemente atolada com papéis e papelinhos de imobiliárias, agentes e mediadores, tudo mais ou menos com a mesma lengalenga:

  • procuramos apartamentos neste prédio para venda imediata, (querem uma lupa?)
  • temos clientes para o seu imóvel, (o i não, mas tenho um móvel na garagem que posso vender…)
  • urgente temos um comprador para o seu t3, (se é urgente é pulseira amarela, se for muito urgente é laranja e as emergências se der tempo põe-se a vermelha!)
  • queremos vender a sua casa, (mas eu não!)
  • está na hora de morar na moradia que sempre quis, venda o seu apartamento… (era isso e um alpendre com azulejos e aqueles gnomos de chapéu vermelho na relva)

a estas investidas uma pessoa ainda reage com um sorriso e pensa  nestas e outras possíveis respostas enquanto lá vou eu passear ali ao papelão de sorriso na cara.

o pior é que nas últimas semanas a coisa mudou, simpáticas agentes imobiliárias tocam à campainha ou fazem esperas à porta e abordam quem sai do prédio com um sempre tão fofinho: “não está interessado em vender a sua casa?”

às vezes ainda brinco e digo: – oohhh só o trabalho de ir mudar a conta da luz e da net não compensa!

à insistência sai: – cara amiga por 1m€ e tá feito!

e então os seus vizinhos!? – não os incomode sff que eu gosto destes e depois ainda me calham uns maus!

mas agora a sério, jovens deixem-se disso que se não eu começo a falar em assédio imobiliário!

Anúncios

há qualquer coisa no meu espectro

que interfere com as portas automáticas ao ponto de quase nunca se abrirem para me dar passagem…

talvez seja um fantasma. talvez seja a porta que não me queira ali.

o que sei é que preciso de abanar os braços como quem se afoga para conseguir sair do supermercado!

os meus bailados no centro comercial

desviando-me que nem uma bailarina do bolshoi

fujo dos centros comercias cada vez mais.

o frenesim do consumo desmedido assusta-me e repele-me desses lugares estranhos, mas recentemente o acaso levou-me até a um dos maiores centros em lisboa.

sempre que lá tenho de ir faço por manter o ritmo do passo largo, desviando-me que nem uma bailarina do bolshoi de turistas, aglomerados de catraios com pouco que fazer, gente a andar absorvida no telefone e por aí fora… o ser humano é lindo mas no centro comercial revela-se muitas vezes como uma besta!

porém desta vez o motivo da minha ida ao centro foi a necessidade específica de uma loja e de um caixote para o lixo. 30 litros em forma cilíndrica e tradicional pedal.

com o carro numa ponta do subterrâneo e a loja na outra só me restou ter de atravessar todo o piso térreo do centro de caixote de lixo na mão, mas desta vez sem bailado e passo largo. calmamente, por entre as galerias de lojas finas e gente aperaltada de sacos na mão, desfilei alegremente de caixote do lixo aos braços, sorrindo e desejando poder depositar nele todos os comportamentos que me desviam daquele lugar.

(depressa concluí que os meus 30 litros não chegariam!)