eu não sou do dia, eu sou feito da noite

eu nasci de madrugada às 01h47.

fui feito para aguentar o escuro, o silêncio e o passar das horas.
fui feito para sonhar acordado, combater os monstros do sono (sempre!) até ao último bocejo de sono.

as melhores recordações de mim vêm de noites não dormidas.
dos meus encontros no escuro.
de alguns sorrisos resgatados com uma simples piada.
de olhares de mistério no silêncio.
das cartas e dos textos que escrevi entregando parte de mim ao incerto.

de noite o mundo acalma, os sons são mais puros.
de noite a minha mente tem mais tempo para percorrer os caminhos de regresso e do futuro incerto.
de noite oiço as vozes do meu passado, o olhar que quase esqueci.

recordo as madrugadas no meu quarto, o cheiro a verão, o chão de tacos encerados sob os meus pés descalços, o cheiro das primeiras fornadas de pão no forno da padeiria, o som do modem de 33.6kb a desligar.

de noite, eu sou mais simples.

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não há curas milagrosas…

a mente não mente.
a mente não pára.

vêm os fantasmas, sentem-se as chagas.
o corpo repele a vontade de sonhar e ali fico no vazio da noite.

aguardo que o despertador me diga para recomeçar
sobram-me o banho quente e a cafeína para atenuar.

falta-me o mar.

os dias deste quase inverno que trazem a prometida chuva e o vento que abala a face com o frio, tenho-nos sentido com uma estranha sensação de falta.

por entre o trabalho, o estudo e a vida que corre com a falta de tempo para os meus (com toda a saudade), cresce uma outra e até agora misteriosa inquietude.

uma sensação de falta e só hoje num relance para o monte, naquele instante religioso do café depois do pequeno almoço me apercebi, fechei os olhos e ali estive onde a terra acaba e o céu (hoje certamente carregado de nuvens) encontra o fim.

é que eu também sou feito de mar (não confundir com o verão!),

sou feito do turbilhão no final da onda e do fundão na areia.

do vento norte e do pôr do sol,

do corpo gelado e do sal cristalizado,

do corpo sacudido pela onda forte,

falta-me o mar.

(falta-me a última barraca da fila 4 dos paus azuis…)

 

destes dias assim de vento e chuva…

em que o tempo contado é escasso e o tempo que faz é brusco, sobra-me sempre um instante para pisar uma poça de água.

as botas já não são lá muito novas mas lá vão cumprindo a promessa de impermeabilidade… em criança a brincadeira era bem mais com pés encharcados (menos da vez que recebi aqueles botins vermelhos!) e tanta coisa recordo…

as barragens na valeta da escola primária,

as noites de tempestade em florestas ao abrigo de uma tenda,

o meu (doce) primeiro beijo à chuva,

as tardes a vaguear pelas ruas à chuva para arrefecer o pensamento adolescente de coração ardente.

recordo as felicidades,
recordo as amarguras,
recordo…

e tudo isso naqueles pequenos instantes em que sorrio e piso com toda a vontade aquela poça de que o mundo se desvia enquanto pragueja com o tempo!

na minha mente, os últimos dias têm sido assim:

uma encruzilhada de pensamentos, entre o estudo e as coisas lá do fundo.

 

há qualquer coisa que me reconforta,

de cada vez que subo ao cimo de uma oliveira.

o ar é puro e o objectivo é simples… apanhar as teimosas azeitonas que não se deixam cair.

sou da cidade mas aprendi a viver na floresta. não percebo nada do campo, da agricultura, das luas para colher ou dos meses para semear… mas de subir às árvores eu percebo! 

lá do alto deito o olho ao céu, vejo o infinito e deixo a mente vaguear enquanto as mãos e braços se deixam arranjar na rama mais teimosa…

e por instantes imagino e esqueço tudo o que não interessa!

há qualquer coisa que me cativa em setembro

não sei se são os resquícios de verão, se são as noites frescas ou o dia que anoitece cada vez mais cedo.
gosto das primeiras chuvas,
gosto dos primeiros tons castanhos que anunciam mais um outono a chegar.

lembra-me uma velha cassete da minha infância (hoje seria um podcast…) com histórias sobre o outono. não me recordo de todos as vozes, mas ainda me lembro que a voz do “outono” era a do ruy de carvalho.
certo é que me estes dias me transportam de volta ao velho quarto da minha irmã, banhado pelos últimos raios de sol e sentado nos velhos tacos de madeira encerada.
ali ficava entretido a escutar o final da dita cassete e a cantar o refrão…

O Outono vem devagar, demora um pouco a chegar. O Outono quer folhinhas, o Outono quer folhinhas p’ra se entreter…”

se a citação não for assim mesmo, anda lá por perto! afinal de contas são memórias de uma velha criança!