não há curas milagrosas…

a mente não mente.
a mente não pára.

vêm os fantasmas, sentem-se as chagas.
o corpo repele a vontade de sonhar e ali fico no vazio da noite.

aguardo que o despertador me diga para recomeçar
sobram-me o banho quente e a cafeína para atenuar.

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falta-me o mar.

os dias deste quase inverno que trazem a prometida chuva e o vento que abala a face com o frio, tenho-nos sentido com uma estranha sensação de falta.

por entre o trabalho, o estudo e a vida que corre com a falta de tempo para os meus (com toda a saudade), cresce uma outra e até agora misteriosa inquietude.

uma sensação de falta e só hoje num relance para o monte, naquele instante religioso do café depois do pequeno almoço me apercebi, fechei os olhos e ali estive onde a terra acaba e o céu (hoje certamente carregado de nuvens) encontra o fim.

é que eu também sou feito de mar (não confundir com o verão!),

sou feito do turbilhão no final da onda e do fundão na areia.

do vento norte e do pôr do sol,

do corpo gelado e do sal cristalizado,

do corpo sacudido pela onda forte,

falta-me o mar.

(falta-me a última barraca da fila 4 dos paus azuis…)

 

destes dias assim de vento e chuva…

em que o tempo contado é escasso e o tempo que faz é brusco, sobra-me sempre um instante para pisar uma poça de água.

as botas já não são lá muito novas mas lá vão cumprindo a promessa de impermeabilidade… em criança a brincadeira era bem mais com pés encharcados (menos da vez que recebi aqueles botins vermelhos!) e tanta coisa recordo…

as barragens na valeta da escola primária,

as noites de tempestade em florestas ao abrigo de uma tenda,

o meu (doce) primeiro beijo à chuva,

as tardes a vaguear pelas ruas à chuva para arrefecer o pensamento adolescente de coração ardente.

recordo as felicidades,
recordo as amarguras,
recordo…

e tudo isso naqueles pequenos instantes em que sorrio e piso com toda a vontade aquela poça de que o mundo se desvia enquanto pragueja com o tempo!

na minha mente, os últimos dias têm sido assim:

uma encruzilhada de pensamentos, entre o estudo e as coisas lá do fundo.

 

há qualquer coisa que me reconforta,

de cada vez que subo ao cimo de uma oliveira.

o ar é puro e o objectivo é simples… apanhar as teimosas azeitonas que não se deixam cair.

sou da cidade mas aprendi a viver na floresta. não percebo nada do campo, da agricultura, das luas para colher ou dos meses para semear… mas de subir às árvores eu percebo! 

lá do alto deito o olho ao céu, vejo o infinito e deixo a mente vaguear enquanto as mãos e braços se deixam arranjar na rama mais teimosa…

e por instantes imagino e esqueço tudo o que não interessa!

há qualquer coisa que me cativa em setembro

não sei se são os resquícios de verão, se são as noites frescas ou o dia que anoitece cada vez mais cedo.
gosto das primeiras chuvas,
gosto dos primeiros tons castanhos que anunciam mais um outono a chegar.

lembra-me uma velha cassete da minha infância (hoje seria um podcast…) com histórias sobre o outono. não me recordo de todos as vozes, mas ainda me lembro que a voz do “outono” era a do ruy de carvalho.
certo é que me estes dias me transportam de volta ao velho quarto da minha irmã, banhado pelos últimos raios de sol e sentado nos velhos tacos de madeira encerada.
ali ficava entretido a escutar o final da dita cassete e a cantar o refrão…

O Outono vem devagar, demora um pouco a chegar. O Outono quer folhinhas, o Outono quer folhinhas p’ra se entreter…”

se a citação não for assim mesmo, anda lá por perto! afinal de contas são memórias de uma velha criança!