delírios (da febre)

eu não me recordo da última vez que tive febre alta (39 ou 40º), mas ainda hoje me lembro de ser criança e ter delírios durante a febre!

o ritual era sempre o mesmo, primeiro a vaso-constrição periférica e a avassaladora sensação de frio. enrolava-me numa manta e ficava ali prostrado a sentir o meu mundo a encolher. as paredes do quarto iam-se aproximando, a pouco e pouco sentia-me cada vez mais sem espaço. sentia o peso do mundo a contrair cada centímetro da minha pele como se estivesse debaixo de um rolo compressor até que de repente sentia-me a cair no vazio. um vazio a escaldar e sem fim.

a salvação era sempre a mesma. a mão cheia de carinho de minha mãe e uma toalha ensopada em água na cabeça.

(acho que é por isso que ainda hoje sempre que um doente tem febre ou hipotermia não consigo parar enquanto não lhe regular a temperatura corporal)

de quando em vez não consigo dormir bem depois de trabalhar de noite

se nas primeiras horas caio sempre redondo no leito, por vezes acontece acordar ao final de umas 3 ou 4 horas e é aí que me vêm à mente as tormentas. de quando em vez recordo os rostos, as falas em dialectos misturados entre português mal-amanhado e kimbundu, kikongo e umbundu. recordo a terra vermelha e o pó no ar. o mar de chapas de zinco e o fedor das ruas. revejo diante dos meus olhos a prepotência dos que pensam que são alguém por usar acessórios de luxo, quando na verdade são apenas mais alguns desgraçados que desgraçam o seu povo e no fim acabam da mesma maneira, deitados num leito de morte (que lhes chega cedo de mais porque o pais onde vivem é miserável), e onde ninguém os sabe cuidar.

atormenta-me a face dos que deixei partir, mas penso sempre com angústia nos que ajudei a cuidar. porque vi felicidade e agradecimento nas caras de seus familiares, mas no fundo receio que muitos possam já não estar vivos. porque o país rico não é capaz de cuidar dos seus. porque o povo não tem formação e no momento em que saem do hospital para fora deixam de tomar medicação… porque não sabem ou não compreendem, porque não têm como ou porque não há onde a comprar…

foi há um ano que deixei de ir aquele lugar maldito.

das vacinas…

enquanto profissional de saúde sou abertamente a favor do nosso plano nacional de vacinação (e não consigo sequer entender como existem profissionais que não o são de tão básica que é a leitura estatística dos ganhos que o nosso país sofreu com a sua implementação).

hoje nos media apenas se diz que uma jovem de 17 anos não vacinada faleceu após infecção com sarampo, doença que se acreditava já estar erradicada de portugal (por “culpa” do sucesso da vacinação).

nada sei sobre a verdadeira história desta jovem e os motivos pelos quais não estaria vacinada, mas enquanto pai não consigo sequer imaginar o sofrimento dos pais desta jovem e a dor que lhes deve ocorrer em cada instante que pensam no “e se”…

de quando em vez até a morte fica à espera

certos doentes lutam até ao fim. o corpo quer desistir, os alvéolos fecham-se e o ph do sangue torna-se incomportável com a vida e ainda assim resilientes esperam por qualquer coisa antes de se deixarem ir.

esta semana assisti a mais um desses casos. doente em estado crítico, sedado e ainda assim esperou que o seu filho regressa-se a portugal. como poderia saber!? a dose de sedação em curso deixaria qualquer um de nós em sono profundo durante dias… e ainda assim esperou.

esperou e o filho chegou. depois deixou-se por fim partir num momento sereno e sem qualquer tipo de agonia. o coração simplesmente parou.

no hospital raras são as noites calmas

mas de quando em vez calha uma tranquila em que a gestão dos cuidados está perfeitamente controlada e eu consigo ter tempo para escutar o tic tac dos relógios ditando o tempo a passar…

de tempos a tempos todos nós devíamos parar e escutar os segundos a passar! 
é que o tempo na nossa vida voa. será que o estamos a aproveitar!?

tenho a certeza que eu estou a tentar!

o momento da partida (mesmo que anunciada) é sempre o mais doloroso

lidar com a morte é uma parte importante do meu trabalho e com o tempo aprendemos a criar um ténue filtro entre aquilo que é o ser-se profissional e simultaneamente ainda o não deixar que a morte nos afecte mas ser-se o mais humano possível para perceber e lidar com a dor dos que ficam.

é uma gestão que confesso que o tempo ajudou a melhorar.

de tantas vezes ter visto o momento da linha isoeléctrica chegar, aprendi que a morte em portugal como em áfrica é sempre igual. é uma violência, é um estrondo de emoções e por muito que se prepare a família, existe sempre uma dor universal, não escolhe línguas, origens nem níveis de educação. é dor ponto. não passa com analgésicos, não passa com o choro nem com as palavras de conforto.

em luanda vivi experiências muito intensas com famílias nos momentos de luto após a morte das suas crianças e isso fez apertar ainda mais o tal filtro do profissionalismo no momento da morte de um doente (pela minha saúde mental teve de ser!).

mas hoje faleceu um super herói, um doente que resistiu a tudo o que de mau lhe podia ter acontecido. hoje faleceu um lutador que mesmo sem poder falar tinha sempre um sorriso que nos fazia lembrar que os nossos problemas são meras futilidades quando comparados com a condição de quem luta numa cama de hospital pela vida que ficou em suspenso lá fora. hoje faleceu um pai que teve o seu filho consigo até ao fim.

abracei o filho e deixei-o chorar.

descansa em paz F.