já perdi a conta às vezes que massagei corações

(pequeno parêntesis)

desengane-se quem pense que isto é como nos filmes… zumba de dar um choque com 200 joules e já está. vida salva e final feliz com beijinho cénico. no que toca a reanimar corações a única coisa que é certa é a massagem cardíaca. coração parado não pega como os carros com um choquinho… é preciso ter actividade eléctrica descontrolada para que se possa fazer algum “reset” com os benditos choques.

dito isto…

já perdi a conta às vezes que massajei corações.

de ambiente hospitalar, à rua e até em aviões.

dos grandes e dos bem pequeninos.

em portugal e em áfrica.

é sempre a mesma coisa. a cadência, o ritmo, os algoritmos, a adrenalina… e a espera que algo aconteça.

porém nas últimas semanas tenho visto algo de novo para mim. certa pessoa impossibilitada de comunicar mas plenamente consciente sofre paragens cardíacas sem que se perceba o porquê. 10, 20, 30, 60 segundos nunca mais que isso mas o suficiente para já o ter reanimado tantas vezes que já nem as consigo contar.

só consigo imaginar o que ele poderá estar a sentir de cada vez que o olho naquele momento em que ele regressa ao lado de cá (será dor ou pavor? será alívio? eu não sei…).

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(iii) conversa com enfermos

no início da semana uma visita perguntou-me o que eu achava da situação clínica da sua esposa, uma doente octagenária que acabara de sofrer um acidente vascular cerebral isquémico. qualquer profissional de saúde sabe que juntar esta idade com avc isquémico é por si só uma terrível equação (fora todos os outros detalhes que aqui não falarei).

ele um senhor nonagenário, invulgarmente enérgico para a idade, olhou-me com um sorriso que escondia dor e disse-me:

– Olhe que eu sem ela não sou ninguém. Se ela for eu vou atrás. É ela que toma conta de tudo…

na altura disse-lhe que ainda era muito cedo para perceber as consequências do avc mas que tinha-mos de dar tempo à sua esposa para recuperar (e genuinamente assim o é. só 48h depois conseguimos ter uma real dimensão dos estragos de um evento isquémico através de exames complementares).

ele então passou-lhe a mão pela face e disse-me:

– O problema é que para nós o tempo esgotou-se.

ao longo da semana tenho pensado nisto. quem nobre é viver com alguém uma vida inteira e ainda genuinamente querer mais!

(e a situação clínica agravou)

(ii) conversa com enfermos

esta semana uma doente sofreu um surto psicótico após a sua cirurgia onde uma das válvulas cardíacas foi trocada e do nada, no meio do seu delírio fulminou-se com o seu olhar e disse-me:

– Eles mentem-me mas eu sei que foi você!

encolhi os ombros e perguntei de volta o que é que eu tinha feito.
a resposta trouxe fúria e gritaria…

– Foi você que me roubou as válvulas!

conversa com enfermos

ontem ao final da tarde um doente acabado de chegar de forma emergente ao meu serviço e por entre a confusão e a agitação associada aos níveis de toxicidade sanguínea disse-me:

– Deixem-me morrer.

desconhecia a sua história, as razões para tal pedido e por isso simplesmente limitei-me a responder: você hoje já morreu uma vez, foi reanimado e agora tenha paciência e deixe-nos acabar a sua hemodiálise.
a resposta foi parca:

– Isso da paciência é uma porra!