(xi) tonalidades

Michael Kiwanuka – Love and Hate (ao vivo para o the current)

é nas manhãs de inverno que se olha para trás e se vê o caminho já feito.

é nas manhãs de inverno, onde o café tem o sabor amargo das dores vividas mas simultaneamente nos aquece a alma por dentro e nos dá aquele kick de arranque para mais um dia.

deito o olho pela janela e espreito o vazio.

cumprimento os meus demónios, (bom dia como vão?)

sigo para o duche, a água quente apazigua a mente!

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desassossego imobiliário

a vida aqui no meu bairro até costuma ser bem tranquila.

de um lado a metrópole a perder de vista, o tejo e em dias bons lá bem longe ao fundo a serra da arrábida. do outro a serra, oliveiras ao abandono, perdizes a esgravatar o chão, gatos vadios a caçar no monte…

mas de há uns tempos para cá, desde que algum iluminado escreveu na comunicação social que era um novo bairro meio de luxo, com excelentes acessos e muito tranquilo a minha caixa de correio tem sido constantemente atolada com papéis e papelinhos de imobiliárias, agentes e mediadores, tudo mais ou menos com a mesma lengalenga:

  • procuramos apartamentos neste prédio para venda imediata, (querem uma lupa?)
  • temos clientes para o seu imóvel, (o i não, mas tenho um móvel na garagem que posso vender…)
  • urgente temos um comprador para o seu t3, (se é urgente é pulseira amarela, se for muito urgente é laranja e as emergências se der tempo põe-se a vermelha!)
  • queremos vender a sua casa, (mas eu não!)
  • está na hora de morar na moradia que sempre quis, venda o seu apartamento… (era isso e um alpendre com azulejos e aqueles gnomos de chapéu vermelho na relva)

a estas investidas uma pessoa ainda reage com um sorriso e pensa  nestas e outras possíveis respostas enquanto lá vou eu passear ali ao papelão de sorriso na cara.

o pior é que nas últimas semanas a coisa mudou, simpáticas agentes imobiliárias tocam à campainha ou fazem esperas à porta e abordam quem sai do prédio com um sempre tão fofinho: “não está interessado em vender a sua casa?”

às vezes ainda brinco e digo: – oohhh só o trabalho de ir mudar a conta da luz e da net não compensa!

à insistência sai: – cara amiga por 1m€ e tá feito!

e então os seus vizinhos!? – não os incomode sff que eu gosto destes e depois ainda me calham uns maus!

mas agora a sério, jovens deixem-se disso que se não eu começo a falar em assédio imobiliário!

na minha mente, os últimos dias têm sido assim:

uma encruzilhada de pensamentos, entre o estudo e as coisas lá do fundo.

 

há qualquer coisa no meu espectro

que interfere com as portas automáticas ao ponto de quase nunca se abrirem para me dar passagem…

talvez seja um fantasma. talvez seja a porta que não me queira ali.

o que sei é que preciso de abanar os braços como quem se afoga para conseguir sair do supermercado!