dez e dez

10e10

La persistencia de la memoria – Salvador Dali (1931)

foi badalada pelas notícias que esta semana, por conta de uma necessidade de recolha de material genético para a realização de testes de paternidade a exumação do corpo de salvador dali.

e foi com curiosidade que o mundo ficou a saber que o icónico bigode continua em perfeito estado e a apontar para as dez e dez.

não deixa de ser irónico que uma das suas mais famosas obras seja mesmo a persistência da memória!

Salvador Dali em “What’s My Line?” (década de 1950)

os meus bailados no centro comercial

desviando-me que nem uma bailarina do bolshoi

fujo dos centros comercias cada vez mais.

o frenesim do consumo desmedido assusta-me e repele-me desses lugares estranhos, mas recentemente o acaso levou-me até a um dos maiores centros em lisboa.

sempre que lá tenho de ir faço por manter o ritmo do passo largo, desviando-me que nem uma bailarina do bolshoi de turistas, aglomerados de catraios com pouco que fazer, gente a andar absorvida no telefone e por aí fora… o ser humano é lindo mas no centro comercial revela-se muitas vezes como uma besta!

porém desta vez o motivo da minha ida ao centro foi a necessidade específica de uma loja e de um caixote para o lixo. 30 litros em forma cilíndrica e tradicional pedal.

com o carro numa ponta do subterrâneo e a loja na outra só me restou ter de atravessar todo o piso térreo do centro de caixote de lixo na mão, mas desta vez sem bailado e passo largo. calmamente, por entre as galerias de lojas finas e gente aperaltada de sacos na mão, desfilei alegremente de caixote do lixo aos braços, sorrindo e desejando poder depositar nele todos os comportamentos que me desviam daquele lugar.

(depressa concluí que os meus 30 litros não chegariam!)

(iii) conversa com enfermos

no início da semana uma visita perguntou-me o que eu achava da situação clínica da sua esposa, uma doente octagenária que acabara de sofrer um acidente vascular cerebral isquémico. qualquer profissional de saúde sabe que juntar esta idade com avc isquémico é por si só uma terrível equação (fora todos os outros detalhes que aqui não falarei).

ele um senhor nonagenário, invulgarmente enérgico para a idade, olhou-me com um sorriso que escondia dor e disse-me:

– Olhe que eu sem ela não sou ninguém. Se ela for eu vou atrás. É ela que toma conta de tudo…

na altura disse-lhe que ainda era muito cedo para perceber as consequências do avc mas que tinha-mos de dar tempo à sua esposa para recuperar (e genuinamente assim o é. só 48h depois conseguimos ter uma real dimensão dos estragos de um evento isquémico através de exames complementares).

ele então passou-lhe a mão pela face e disse-me:

– O problema é que para nós o tempo esgotou-se.

ao longo da semana tenho pensado nisto. quem nobre é viver com alguém uma vida inteira e ainda genuinamente querer mais!

(e a situação clínica agravou)