(iii) conversa com enfermos

no início da semana uma visita perguntou-me o que eu achava da situação clínica da sua esposa, uma doente octagenária que acabara de sofrer um acidente vascular cerebral isquémico. qualquer profissional de saúde sabe que juntar esta idade com avc isquémico é por si só uma terrível equação (fora todos os outros detalhes que aqui não falarei).

ele um senhor nonagenário, invulgarmente enérgico para a idade, olhou-me com um sorriso que escondia dor e disse-me:

– Olhe que eu sem ela não sou ninguém. Se ela for eu vou atrás. É ela que toma conta de tudo…

na altura disse-lhe que ainda era muito cedo para perceber as consequências do avc mas que tinha-mos de dar tempo à sua esposa para recuperar (e genuinamente assim o é. só 48h depois conseguimos ter uma real dimensão dos estragos de um evento isquémico através de exames complementares).

ele então passou-lhe a mão pela face e disse-me:

– O problema é que para nós o tempo esgotou-se.

ao longo da semana tenho pensado nisto. quem nobre é viver com alguém uma vida inteira e ainda genuinamente querer mais!

(e a situação clínica agravou)

Anúncios

Autor: il

os “tontinhos” do tarot dizem que o louco é a carta do isolamento, da precipitação, da loucura e da confusão. a única sem número e que por isso significa a liberdade. que o louco olha para o infinito e que isso demonstra que a vida é muito mais do que vemos e a felicidade poderá estar além das aparências do dia-a-dia. bom até poderão ser tontinhos e ter programas da manhã bem chatos mas no essencial quanto ao louco até parecem ter alguma razão! sou do tempo da internet com ligação por modem a 56kbs e do luxo da adsl a 2mbs. sou do tempo do mIRC e do msn. sou da primeira geração de blogs. um dia recebi uma carta da joana de braga e fiquei ilmatto! criei um blogue e partilhei emoções até que um dia achei que chegara o final da canção… andei por aí a viver e a crescer. deixei o isolamento, isolando os meus pensamentos. o il perdeu-se do matto e com isso descobri como viver feliz!

2 thoughts on “(iii) conversa com enfermos”

    1. certamente que sim. mas muitos momentos são também impossíveis de relatar, seja pela complexidade, seja porque assim o deve ser. (há conversas com enfermos que devem ficar em suspenso e enclausuradas no seu momento).

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s