delírios (da febre)

eu não me recordo da última vez que tive febre alta (39 ou 40º), mas ainda hoje me lembro de ser criança e ter delírios durante a febre!

o ritual era sempre o mesmo, primeiro a vaso-constrição periférica e a avassaladora sensação de frio. enrolava-me numa manta e ficava ali prostrado a sentir o meu mundo a encolher. as paredes do quarto iam-se aproximando, a pouco e pouco sentia-me cada vez mais sem espaço. sentia o peso do mundo a contrair cada centímetro da minha pele como se estivesse debaixo de um rolo compressor até que de repente sentia-me a cair no vazio. um vazio a escaldar e sem fim.

a salvação era sempre a mesma. a mão cheia de carinho de minha mãe e uma toalha ensopada em água na cabeça.

(acho que é por isso que ainda hoje sempre que um doente tem febre ou hipotermia não consigo parar enquanto não lhe regular a temperatura corporal)

do 13 de maio

na minha cabeça existe uma longa dissertação em evolução constante sobre a minha relação com a fé, deus, a humanidade e o amor/ódio para com a igreja católica. mas isso fica para um outro dia…

sobre o 13 de maio para mim apenas me interessa um facto, o amor.
o amor é paz e paz é amor… (até a malta dos 60’s e 70’s tanta vez sob efeito de psicotrópicos sabia isso!)

cada um de nós terá as suas dúvidas ou certezas se a mãe de cristo apareceu um dia sobre uma azinheira no tal descampado perto de ourém num portugal faminto, de povo descalço e analfabeto a 3 crianças que andavam pelo monte a sobreviver, porém, pensar nos milhões de pessoas que desde há 100 anos acreditam numa mensagem de paz e amor entre a humanidade é para mim milagre mais que suficiente.

o mundo precisa de amor.

sempre que o vento faz abanar uma janela

eu gosto de fechar os olhos e reclinar a cabeça.

viajo até à minha adolescência. estou deitado no meu quarto e o vento sopra abanando as portas de vidro em cada rajada mais intensa.

coloco a cassete dos nirvana com o unplugged gravado e  fico a ouvir a the man who sold the world enquanto adormeço.

(esta malta nova não sabe mas sofre de desgosto por não saber o que é aquele som arranhado de uma cassete velha!)